São tantos registros sobre solidão, angústia, ansiedade
O que há de novo sobre tudo isso?
O que tem de especial na minha insignificante existência triste?
Meu poema é só um grito mudo para o nada
Mas não consigo evitar
Preciso anunciar minha vida fútil
Mesmo compreendendo a futilidade do meu relato
Qualquer um chora o que eu choro
A lucidez me convida a segurar o lápis
E agradeço minha vida descartável
minha solidão desimportante
e minha ansiedade desprezível
Sou feliz e desgraçada
sexta-feira, 24 de maio de 2019
sexta-feira, 17 de maio de 2019
Será preciso muita coragem para o que eu vou fazer agora. Dizer para o nada e para o ninguém. Me arriscar à enorme decepção da pobreza do sentimento verbalizado. Terei que transformar o abstrato em concreto. Como eu posso dizer que o meu maior medo é exatamente em relação a dizer? Meus sentimentos não são médios, não sei o que é o neutro. Eu transbordo na minha autobiografia sem fatos. Essa é a minha confissão, e nela não há vida. Não sou o que os outros me veem ser, sou muito mais aquilo que em mim não é. Se não sou única por ser imperfeita, pois o imperfeito é tudo, sigo vivendo sem saber que tenho vida, alheia ao próprio destino. Vim livremente dizer o que fatalmente imagino que sou e assim corro o risco de encontrar a realidade.
quarta-feira, 8 de maio de 2019
Faz quatro horas que eu estou no hospital e resolvi escrever para me distrair. Vim pra cá mais vezes esse ano do que nos últimos cinco juntos. A última foi nesse mesmo mês quando acordei e de repente não tinha forças para ficar em pé. Cheguei no hospital de cadeira de rodas e tudo e fiquei um bocado preocupada. Tudo bem que nos quatro dias anteriores eu bebi e fumei como uma desgraçada. Eu não disse isso para o clínico geral que me atendeu, lógico. Disse que poderia ser por causa da doença crônica que eu tenho, e bem que era verdade. Fiz uma porção de exames, passei a tarde inteira na droga do hospital e no final saí só com uma receita de antibióticos para tratar uma infecção urinária. Provavelmente tudo que aconteceu decorreu das minhas noitadas. Justo. Saí andando do hospital e acendi um cigarro ainda na porta. Meu amigo e meu namorado que passaram a todo aquele tempo comigo ficaram revoltados. Meu namorado só voltou a falar comigo horas depois. Levei o maior gelo mesmo. Não vou mentir, me senti mal pra caralho de fazer aquilo. Mas naquela hora eu precisava mesmo. Só quem é muito viciado em nicotina seria capaz de entender. Hoje faz três semanas que eu parei de fumar. E vim para no hospital por causa de uma terrível dor no peito. Irônico, não? Mas aqui vou confessar uma coisa. Sou uma puta mentirosa. Disse para todos os conhecidos e familiares que parei de fumar e fumei escondida nas últimas três semanas. Não. Nas últimas duas semanas. Eu também não sou tão cretina assim. Na primeira semana eu realmente acreditei que conseguiria, e estava feliz com o progresso. Mas um dia acordei me sentindo miserável e tive uma recaída. Não consegui parar de novo depois disso. O lado bom é que fumar escondido me fez fumar muito menos que o habitual. O lado ruim é a sensação de estar enganando todo mundo, o que só aumenta a ansiedade e a vontade de estar sozinha novamente para fumar mais um cigarro.
Mas como eu estava dizendo, hoje senti uma dor infernal no peito. Eu moro sozinha e minha família mora longe, então não teve jeito, vim sozinha pra essa droga. Se as pessoas da recepção soubessem o peso do desamparo quando me perguntam se eu preciso de etiqueta de acompanhante e eu tenho que dizer que não! Devo ter feito uma cara de mulher sozinha ou foi só por causa da visível dor e dificuldade de respirar, só sei que fui direto pra triagem. Uma cabine minúscula e ridícula onde medem seus sinais vitais só pra ver se você está morrendo ou pode esperar com os outros miseráveis no purgatório. Assim que eu sentei me pus a chorar como uma louca. Eu estava segurando esse choro. Meu peito doía muito, mas o choro foi uma mistura de medo, culpa e solidão. Não tive vergonha, na verdade, queria mesmo que aquela enfermeira de sorriso falso e olhar condescendente me desse um abraço. Um abraço que minha mãe me daria se estivesse por perto. Pensando melhor, não queria não. Me recompus para entrar na sala de tortura, digo, sala de espera. Eu posso dizer que como paciente conheço uma porção de alas do hospital. Tudo começa na recepção, depois triagem, consultório. Aí depois você toma um soro, ou uma medicação, faz uns exames, depois espera uma eternidade para pegar os resultados, volta no consultório e se tudo der certo você pode voltar pra casa. Mas o pior mesmo são as salas de espera. Geralmente os exames demoram muito para ficarem prontos, mas pelo menos nessa fase você já está medicado. Mas a sala de espera antes da primeira visita ao consultório é um troço ridículo. Crianças, adultos, idosos, tudo junto, amontoado. É tenebroso. O pior não é nem a cara de sofrimento de quem está passando mal e sim os cretinos que não calam a boca e não param de rir. Estão sempre mexendo no celular e comendo alguma coisa, parece que estão na porra de um shopping. Ah, mas cada um lida com o estresse de uma forma diferente. É o caralho. Já infartou no shopping? Eu também não, mas deve ser uma sensação parecida. Eu odeio shopping, tudo no shopping. O ambiente, as lojas, as pessoas. Agora experimenta misturar isso com outro lugar odiável que é o hospital. É de tirar qualquer um do sério. Especialmente nessa ocasião a dor estava de matar. Literalmente. Eu pensei que teria um troço e morreria. Bem ali naquela maldita sala de espera. Até que seria interessante esfregar um pouco de realidade na cara daquelas pessoas. Mas pensando bem eu odiaria que aqueles imbecis ficassem ali olhando meu corpo no chão. Minha cara seria a mais imbecil de todas. Se alguém me cobrisse com um pano assim que eu caísse dura seria melhor. Eu poderia traumatizar algumas crianças mimadas e ninguém ficaria olhando minha cara de imbecil. Enfim, tenho certeza que ninguém faria isso por mim, pelo menos não tão rápido quanto eu gostaria. Então que bom que eu não morri ali.
Difícil descrever a cara tão comum do médico que me atendeu. Era muito, muito comum mesmo. Mesmo agora não consigo lembrar. Eu estava tentando segurar o choro enquanto explicava o que tinha acontecido, eu estava sensível pra caralho. A postura dele era tão apática e sem personalidade quanto a cara dele. Pediu para eu respirar fundo, deu uma batidinha na minha barriga. Tudo ok. Mas aí o filho da puta viu que eu estava na boa demais e bateu bem onde eu já havia falado que estava doendo. Eu quase alcancei o teto com o pulo que eu deu. Tudo pra confirmar que realmente doía o lugar que eu disse que estava doendo. Pediu exame de sangue, urina e tomografia. A palavra "tomografia" ficou reverberando na minha cabeça. Eu nunca tinha feito e a única coisa que eu sabia sobre esse exame é que meu pai não conseguiu fazer. Meu pai é um homem forte de quase um metro e noventa e o tenho na mais alta estima de determinação. Achei que não ia conseguir também. Mas segui firme. Até que me deu uma puta vontade de tossir e senti tanta dor e soltei um gemido e comecei a chorar. O médico-cara-comum olhou pra mim e disse que poderia ser uma pneumonia ou até um coágulo no pulmão, faria sentido por causa dos outros problemas de saúde que eu tenho. Faria sentido também os dois anos de fumante inveterada, mas novamente eu omiti essa informação. Perguntei pra ele se umas sete da noite eu estaria liberada porque tinha que trabalhar. Ele me olhou como se eu estivesse drogada falando algum absurdo. Depois da pausa dramática disse que eu já podia avisar que não trabalharia nesse dias e nem nos próximos. Inocência a dele de achar que pra mim tudo seria resolvido com um atestado. Eu dou aula particular de desenho e não importa se estou morrendo ou com um atestado assinado pelo próprio Jesus Cristo. Se eu faltar preciso ser substituída e pagar por essas horas para o professor. Eu vou perder um total de três aulas, onze alunos. É melhor nem fazer as contas agora. Eu sei que não vou ter dinheiro mesmo. Afinal mandei mensagem pra minha chefe e expliquei que estava no hospital e não sabia que horas eu ia sair, de qualquer forma não poderia dar aula. Ela mandou um "entendi" e disse que outro professor me substituiria Isso me chateou pra caramba. Nem um "melhoras", nem um "mas ta tudo bem?". É o tipo de coisa que uma pessoa pergunta mesmo sabendo que a resposta é não. Acabou que ela foi a primeira pessoa a saber que eu estava no hospital. Engraçado porque ela talvez seja a pessoa que menos se importa. Atualmente eu sou a professora com mais alunos no ateliê, mas como ficou bem claro, posso ser facilmente substituída. Valeu.
Acho que vou simplesmente pular a parte dos exames e resultados. A única coisa que aconteceu foi que a dor diminuiu consideravelmente (o que, pensando bem, foi uma grade coisa) e depois esperei por umas três horas sair os resultados. Interessante mesmo foi fazer a tomografia! Isso é digno de nota. É um aparelho gigante em formato de portal de outra dimensão. Eu achei bem engraçado. Aí a enfermeira veio aplicar o contraste - eles sempre perguntam sobre alergia, mas como vou saber? - aí ela me explicou que eu sentiria um calor no corpo e ia parecer que urinei na roupa, mas só ia parecer mesmo. Eu ri e perguntei, só pra confirmar, se podia acontecer mesmo de eu me mijar durante o exame. Ela disse que não de novo. Ela não estava rindo, talvez não fosse algo engraçado mesmo. Mas quando a gente não tem muitas opções acaba se apegando a cada mesquinharia, é impressionante. O troço parecia mesmo com um portal. Meu pai ficou com medo disso? Eu na verdade estava até curiosa de ver aquilo funcionando e sentir a tal sensação de mijar na roupa. Deitei na maca e o negócio começou a girar, era muito maneiro. A maca ia pra frente e pra trás e uns desenhos toscos na altura do olhar indicavam quando era permitido respirar (rs). Aí o troço começou a girar muito rápido, tipo uma centrífuga e aí o corpo começou a esquentar, como que de dentro pra fora e enfim me mijei inteira. Mentira. Mas as enfermeira estava certa, a sensação era iguale eu até peguei na minha calcinha pra ver se não estava molhada. Não estava e aí eu ri de novo, porque ainda estava achando aquilo bem engraçado. Depois não achei tanta graça quando os resultados desse exame saíram horas depois. A enfermeira tinha dito até uma hora. E como ela estava certa sobre o negócio do xixi, tão mais improvável, acreditei nela. Eu aporrinhei um bocado a mulher do balcão dos resultados. Acho uma sacanagem fazer isso no hospital, fico imaginando o tanto de gente que deve encher o saco dela o dia inteiro. Mas eram quase oito horas da noite, eu estava com fome, cansada e afinal super ansiosa pra saber o que eu tinha. Juro que se tivesse como eu acenderia um cigarro ali mesmo. Acabar de morrer logo, sem todo esse suspense. Estúpido pensar assim, mas juro que não conseguia pensar em outra coisa. Enquanto isso eu brincava de morder minha boca pra me distrair. Brincadeira nada. Um hábito terrível de uma pessoa terrivelmente ansiosa e impaciente. Esse tique ficou dez vezes pior depois que parei de fumar. Dessa vez caprichei, abri uns bons três buracos no meu lábio inferior. Se eu conseguisse fumar daria um jeito de fumar e morder a boca ao mesmo tempo de tão doida que eu sou. Eu consigo ser um bocado nervosa. Acabou que a mulher se encheu e me levou de volta aos consultórios. Não sei se por insistência ou porque era grave mesmo. Eu reparei que a minha era a única pasta amarela no meio de um monte de pastas verdes e a minha foi chamada antes da de todo mundo. Que sorte a minha, não?
Infelizmente o doutor-cara-comum já tinha ido embora. Eu senti saudades dele. A médica que estava lá era a pior. Eu vou economizar nas palavras porque nem vale a pena. Só digo que ela ficou uns bons minutos só olhando a tela do computador e disse, sem cerimônia, que eu tinha uma embolia pulmonar e teria que ser internada imediatamente na UTI. Que filha da puta. Eu fiquei assustada, abaixei a cabeça e comecei a chorar. Ela só continuou mexendo na droga do computador. Em nenhum momento ela tentou me tranquilizar, não falou que ia ficar tudo bem, não tocou na minha mão, nada. É sério, ela nem sequer me olhou. O que ela fez foi se levantar e fazer qualquer coisa muito importante do lado de fora da sala. Desabei por três segundos na cadeira e engoli o choro quando ela voltou, era a força do ódio. Ela continuou mexendo no cacete do computador e como ela estava me dando um gelo mesmo, eu resolvi que era tempo de avisar às pessoas o que estava acontecendo. Primeiro avisei minha irmã, a única representante da família ainda na cidade. Depois avisei meu namorado, esse foi foda, porque pra ele eu menti. Conversei durante a tarde inteira com ele como se estivesse tudo bem. Disse que passei a tarde estudando e que depois daria aula. Seria verdade se não fosse mentira. Ficou preocupado e rápido ele e minha irmã estavam à caminho. É uma sensação boa saber que não estou desamparada.
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