domingo, 2 de outubro de 2016

Vivo em uma resignada mediocridade, acreditando que esteja destinada a realizações especiais. Um dia. Dói pensar que isso talvez seja mais uma ilusão conveniente para fugir do meu futuro de normalidade. Isso realmente perturba meus dias e tira meu sono. Eu que não acredito em nada, estou desamparada. Se a vida agora não faz sentido, pra mim, tem porquê dar continuidade a ela? 

domingo, 11 de setembro de 2016

(A personagem bola um cigarro com tabaco orgânico com excelente habilidade). Hoje me deparo com aquela cama vazia e entendo perfeitamente que o vazio está dentro de mim. Na verdade sempre esteve, mas eu nunca fui capaz de perceber. Achei que a morte da minha mãe seria minha libertação. Lembro de muitas vezes desejar isso secretamente. Não, não tenho vergonha de admitir isso agora. Apenas quem viveu a vida inteira dentro de casa cuidando de uma pessoa doente poderia entender o meu fardo. Não que tenha sido sempre ruim. Ficar dentro de casa todo esse tempo fez com que eu desenvolvesse algumas habilidades. Sem conhecer o mundo exterior eu tive a chance e criar um mundo totalmente fantástico, que vai ficar para sempre registrado nos meus desenhos. (Fala baixo, quase para ela mesma, porém audível) Que droga mãe, agora não consigo mais desenhar merda nenhuma! (O cigarro fica pronto e ansiosamente ela o leva a boca e dá uma tragada profunda, percebe-se sua frustração). O mundo real é uma grande merda. Pelo menos posso acender meu cigarro quando eu quiser. Vocês não sabem o que é fumar dentro de um banheiro durante 50 anos. Estou viva, não posso me dar ao luxo de ser infeliz.


quinta-feira, 4 de agosto de 2016

A frase "Êta beijuzinho bom" ficou famosa quando o prefeito Liobino foi a um restaurante e, pela primeira vez, viu um guardanapo de pano enrolado sobre o prato. A frase foi proferida enquanto ele tentava cortar o guardanapo.
Ainda na capital, Vô Binidito pegou pela primeira vez o elevador. A ascensorista peguntou para que andar ele queria ir e fez seu trabalho. Chegando ao destino, vovô tirou a carteira do bolso para pagá-la e ela disse que não precisava, que era de graça. Acho que vovô gostou do preço, perguntou: amanhã você me leva na rodoviária?
Vô Binidito precisou visitar a capital. Pegou um táxi na rodoviária para levá-lo a rua da Pensão e se surpreendeu com a desenvoltura do motorista apressado. Já em um estado de tensão, o motorista pergunta: Quer ficar em qual altura? Vô, que nunca se exaltava, de brusco respondeu: Se você levantar um palmo do chão eu te dou um tiro!

quarta-feira, 22 de junho de 2016

"Recusamos a ver que a vida é a armadilha feita ao equilíbrio, que toda ela significa uma situação instável, desequilibrada, para onde nos conduz. É um movimento tumultuoso que se encaminha para a explosão."

BATAILLE, Georges. O Erotismo. Porto Alegre:L&P, 1987.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Ano passado a minha amiga me emprestou um filme: Gilbert Grape. Eu assisti mais de uma hora do filme, mas não colou. Achei a história chata, a motivação dos personagens fraca, mais uma história de amor idealizada. Foi isso o que eu pensei na hora. Não saberia dizer hoje os motivos exatos, mas essa foi a impressão que ficou. No dia seguinte quis delicadamente introduzir o assunto, e disse "nossa, que filme chato, não consegui ver tudo mesmo faltando pouco". Meiga como sempre, ela me disse que era um dos seus filmes preferidos. Me senti mal pela minha indelicadeza e resolvi assistir ao filme inteiro, ao menos para criticá-lo com maior propriedade. E assistindo ao final, me deparei com aquela cena magnífica da casa pegando fogo e fiquei em êxtase. Mudou completamente a minha visão do filme. A mãe do Gilbert queimando lá dentro, o que poderia lhe causar angústia, na verdade significou a sua liberdade. Sem a sua mãe, sem a sua casa, não haveria mais nenhum impedimento para que fosse viver a sua vida. Achei inspirador e entendi o porquê de a minha amiga gostar tanto dele.

Hoje assisti a um filme que me fez recordar o que senti quando vi essa cena de Gilbert Grape. O título original é The Dressmaker, a tradução brasileira ficou A Vingança está na moda. Direto ao ponto: foda! Apesar da trama ser bem tradicional, os personagens são extremamente cativantes. E quando você está envolvida e torcendo por um deles, ele morre. Mas nós espectadores gostamos de ficar indignados. Na verdade, todas essas perdas fortalecem a personagem da Kate Winslet, Myrtle. E no fim ela sai vencedora, rumo à Paris, deixando atrás de si aquele "lixo" de cidade pegando fogo. Incrível. Ela sai triunfante, depois de encontrar as respostas pelas quais procurava. O que me intrigou e que ao mesmo tempo me deixou ainda mais encantada pelo filme, é que em momento algum ela teve a prova de que não era amaldiçoada, pelo contrário, teve provas o suficiente para acreditar que era. Porém, no final ela consegue se erguer, graças à amizade e redenção do seu amigo sargento Farrat, pelo amor da sua mãe e principalmente pela sua sede de vingança. Aquela cidade é a maldição de Myrtle, e ela entende isso. Vai embora pois não há nada para ela ali, nada que aquela cidade ou aquelas pessoas possam lhe oferecer. E foi preciso que seu amante e seu mãe morressem para que ela pudesse perceber isso. Ela foi embora para construir seu futuro, e fez sua própria sorte. Literalmente, queimando os fantasmas que a assombravam.

Poderosíssima

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Livros lidos em 2015


  • O lobo do mar - Jack London
  • As relações perigosas - Choderlos de Laclos
  • Retrato do artista quando jovem - James Joyce
  • Contos fantásticos - Guy de Maupassant
  • 20 mil léguas submarinas - Julio Verne
  • O retrato de Dorian Gray - Oscar Wilde

sexta-feira, 22 de abril de 2016

"Eu quero é saber de tudo
mas é agora na minha idade
Deixo um beijo pra minha mãe
E um retrato pra matar saudade
A hora triste que sempre chega
no cair da tarde"

Xangai

Uma história para não esquecer Parte 2

Meu amigo tem histórias incríveis. Sua bisavó apaixonou-se pelo seu primo, que estava com um quadro grave de tuberculose, mas foi proibida pelos seus pais de unir-se a ele, pois estava prometida a outro. Ela reivindicou a posse do seu dote, que na época, era apenas entregue para o marido, após o casamento. De algum jeito ela conseguiu pegar esse dinheiro, fugiu de casa, comprou um vestido de noiva e organizou seu próprio casamento. Levaram seu noivo em cima de uma cama para que pudessem casar-se na capela. Com o restante do dote, comprou a capela e viveu com ele (lá dentro) os próximos anos, a fim de curar-lhe. E deu certo. Saindo de um quadro -dito- irreversível de tuberculose, seu bisavô recuperou-se completamente. Viajaram de barco para o Pará e já tiveram seus primeiros filhos lá dentro. Ao longo da vida moraram em vários lugares, tiveram mais filhos. Moraram embaixo de um cajueiro. Ela dizia que era o cajueiro mais limpo da cidade, que era só uma folha cair que ela recolhia. Tornaram-se comerciantes de farinha e estabeleceram condições melhores de vida. Voltaram juntos para sua cidade natal, de onde tinham fugido, e tornaram-se agiotas. Compraram cabeças de gado, fizeram plantação e criaram muito bem seus 15 filhos. Seu bisavô morreu com 99 anos. E a sua avó faleceu logo depois, de tristeza.

Uma história para não esquecer

A tataravó do meu amigo teve complicações nas suas primeiras gestações. Seus primeiros 6 filhos morreram antes de completar 3 anos de idade. Cansada desta frustração, fez uma promessa para Santa Luzia, não se sabe ao certo o que foi prometido apenas que pagou até o último dia de sua vida, e desde então seus filhos passaram a vingar. Seis vieram, todos com nomes começados com a letra L. Seu marido, não a amava. Se apaixonou pela sua irmã mais nova, que também engravidou meia dúzia de vezes, sem sucesso. Mas ao contrário da irmã mais velha, cujo desejo de ser mãe era íntimo e verdadeiro, havia boatos que ela mesma abortava e enterrava suas crias. Ela e o tataravô do meu amigo nunca ficaram juntos e ela um dia simplesmente sumiu. Não se sabe para onde foi e ninguém nunca a procurou, apenas fingiram que nunca existiu. E nunca mais citaram seu nome. Tataravó e tataravô viveram juntos toda a vida, mas sem existir carinho entre eles.
 

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