Estou em Montes Claros, à pedido dos meus pais. Esse lugar me deprime horrores, não sei explicar. Seria inútil, não acredito que tenha alguma explicação. Mas uma coisa eu sei que tem grande peso: aqui eu não tenho liberdade para exercer meu grande vício: fumar. Fumar na casa dos meus pais é um grande malabarismo. Tanto é que dessa vez eu não trouxe um cigarro sequer, disse a mim mesma que não valia a pena todo o esforço e a culpa de fumar escondido: ficaria duas semanas sem. Meu Deus, que ingenuidade. No primeiro dia me contorci, o segundo dia foi difícil, no terceiro dia me senti maravilhosa e vitoriosa, ansiosa pela vida saudável que eu já conseguia vislumbrar. No quarta dia queria contar pra todo mundo, exibir minha conquista, algo em mim precisava muito de reconhecimento externo, porque, nesse quarto dia, eu estava deprimida e ansiosa com a abstinência. No quinto dia peguei cinco reais emprestados com meu pai, e surrupiei vinte e cinco centavos que estava dando mole em cima de uma estante e saí convencida de que compraria uma carteira de cigarro. Mas não se esqueça, estamos em quarentena. Não temos comércio funcionando normalmente. Andei por quinze minutos para encontrar uma mercearia safada. Chegando lá o safado do dono aumentou o preço da carteira. Esse mesmo cara se recusou a me dar um desconto de vinte e cinco centavos pra mim uma vez (em pleno Natal). Sabia que não adiantava pechinchar. O cara era zica. Sem esperanças de arranjar um real que faltava pela rua, peguei minha nota de cinco e pedi dois cigarros picados, o que dava um real, no total. Na minha cabeça era melhor comprar só dois, matar o que estava me matando, naquela hora, naquele momento, e no dia seguinte eu dava um jeito de pegar outros dois. O vício né. Acendi o primeiro e sentei no meio fio. Nessa hora eu descobri que nos últimos dias toda ansiedade e depressão não era por causa da pandemia, ou da saudade de casa, dos meus amigos, era falta de nicotina. Quando eu dei o primeiro trago, senhor, que paz. Nem queria saber se amanhã teria dois reais para completar a grana. Pensei, foda-se, agora tudo está em paz no meu mundo. Queria curtir essa sensação. De repente um desconhecido me interrompe. Cara, só quem leva o ato de fumar muito à sério entende essa sensação. É como você estar relaxando, cagando no seu banheiro e, de repente, alguém abrir a porta. A pessoa pede desculpa, sai, mas já era. Não dá pra voltar pro mesmo estado de relaxamento de antes. Enfim, se você fuma ocasionalmente, ou é um não-fumante, nunca vai entender. E ótimo, parabéns pra você. Enfim, esse cara chegou e eu já olhei querendo mandar tomar no cu. Mas o que ele disse soou como um canto angelical: tá faltando quanto pra completar o dinheiro da carteira? Porra... O cara viu meu desespero nos dias anteriores quando eu parava lá e ficava só olhando, morrendo de vontade de fumar um cigarrinho só. Provavelmente me viu nesse mesmo dia indo lá mais cedo quando o armazém ainda estava fechado. E depois eu saindo com apenas dois cigarros. É extremamente suspeito e creepy um desconhecido notar tantas coisas sobre você, sem que você perceba? Com certeza! Mas eu virei pra ele e respondi: dois reais. Ele tirou da carteira, me deu, eu agradeci, comprei uma carteira de minister e acendi outro cigarro. Na outra esquina. Salvou minha sexta-feira da paixão, meu sábado de aleluia e meu domingo de páscoa. Obrigada, desconhecido!
Stay away
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